Gestão e futebol: Série A, o maior moedor de treinadores do planeta
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O moedor de treinadores e quando o erro vira método
O futebol brasileiro não tritura treinadores por acaso. Ele os tritura porque, em alguns momentos, a troca entrega resultado. E quando dá certo no curto prazo, ninguém revisita o caminho.
Os números do Brasileirão 2025 são claros. Apenas seis clubes mantiveram o mesmo treinador. Outros seis trocaram uma vez. Cinco passaram por três técnicos e três clubes chegaram a quatro comandantes no mesmo campeonato. Foram 25 mudanças em 14 clubes. Isso não é ajuste, é padrão.
A própria classificação ajuda a desmontar a lógica rasa do certo ou errado. Os quatro primeiros colocados do campeonato não trocaram de treinador. Flamengo, Palmeiras, Cruzeiro e Mirassol apostaram na continuidade e foram premiados com desempenho e resultado. O Bahia, sétimo colocado, também manteve seu técnico durante toda a competição. Do outro lado da tabela, o Ceará terminou em 17º, caiu e igualmente não trocou de treinador. A permanência, sozinha, não garante sucesso. Assim como a troca, isoladamente, não explica o fracasso.
Nem toda troca é erro. Nem toda permanência é virtude. O problema está na ausência de critério e, principalmente, na falta de avaliação depois do desfecho. Quando o resultado aparece, o debate se encerra. Salvou, então estava certo.

Esse padrão já chamou atenção fora do país. Em 2024, Pep Guardiola foi direto ao analisar o futebol brasileiro. Lembrou que não venceu em seu primeiro ano no Manchester City e afirmou que, se tivesse sido demitido naquele momento, o clube jamais teria vivido os oito ou nove anos seguintes. Para ele, quando uma temporada termina com três ou quatro treinadores, o problema não está apenas no banco, mas em quem escolhe, avalia e repete os mesmos movimentos.
O CRB em 2024 ilustra bem essa lógica. O clube trocou três vezes e conseguiu salvar-se da queda. Produto final positivo. A diferença veio depois. Hélio dos Anjos não permaneceu, houve avaliação. Louzer chegou, ganhou o tetra estadual e, mesmo assim, foi avaliado. Eduardo Barroca assumiu. Pressionado por redes sociais após cinco jogos sem pontuar, o CRB não repetiu o senso comum. Bancou a escolha. O acerto apareceu. Não foi teimosia, foi convicção.
O CSA viveu o caminho oposto. Manteve comissão e base de atletas de 2024 para 2025. Higo Magalhães desenvolveu trabalho, caiu no estadual, mas avançou nas Copas do Nordeste e do Brasil. A oscilação gerou um movimento raro e confuso. Higo foi demitido. Márcio Fernandes chegou e, quinze dias depois, Higo voltou. O ruído institucional se instalou. O time não se estabilizou e a queda para a Série D veio.
Os dois casos mostram o ponto central. Trocar ou manter não define sucesso. O que define é entender o porquê de cada movimento. Movimentos repetitivos não são neutros. Às vezes salvam. Muitas vezes cobram a conta depois.